po(e)st(ma)s

nada de mais. por mais pretensioso que isso possa parecer...

31.5.05

“bye bye baby blues”

seria
tão mais fácil
se eu
sentisse
raiva

30.5.05

“em branco”

uma noite quente
e silenciosa
pontua minha
recém resgatada
liberdade

não tenho nenhuma atitude
em mente

nada ensaiado

esse interlúdio
despremeditado
me pegou sem jeito
mas viro em improviso
o sentimento hesitante
de poder tudo

o texto já existe
mesmo que eu não
tenha lido
e vai ser encenado
de um jeito ou de outro

digo a fala
sem esperar deixas
na pressa de viver a trama
e espero
as respostas possíveis

com o coração na boca

28.5.05

“solilóquio”

eu sou eu
e sou o outro
que olha pra mim
curioso

sou o único
que quer ler
meus rabiscos
discretos
no caderno

me vejo cochilando
na aula
e rio comigo

ninguém mais
dá por si

ou por mim

além de nós

27.5.05

“dazibao”

perdi-me.

entre sonhos
feras
ânsias
anjos
pressas
pontos
pragas
fatos
seres
vida escassa

olho o grito
escrito

público:

perdi-me.

a quem
interessar possa

25.5.05

“aro bobô yí”

quando Iansã
partiu
deixou
o mundo
todo molhado

saí de casa
e vi
nas águas sujas
das ruas
duas cobras gêmeas

nadando
na direção
do arco-íris

24.5.05

“vingança”

às armações
que a vida
nos apronta

tenho a
resposta
perfeita

certeira
e fatal

quase
simples
de tão
difícil

mas
incrivelmente
possível:


é só
conseguir
desenhar
no meio
da dor

a mais
bem dada
gargalhada

23.5.05

“teatro”

(d’après istván szabó)



atuar é parecer

nenhuma conexão
necessária
com ser
nada diferente
de viver

papel que
desempenhamos
involuntariamente

vigiados pelas retinas
das câmeras de segurança
e por lentes
de outros olhos

na mesmice
do enredo
rosto e máscara
se confundem

mas
às vezes
se dá o milagre
e por trás
do velho texto
pulsam novas
intenções

21.5.05

“ícaro”

livrar-se
daquilo que
prende

deixar para trás
o que impede
a clara visão
do futuro

cortar
as falsas asas
que apenas
pesam

sem pena.



hoje sou
mais livre

e dói

17.5.05

"menos"

não sei mais
o que
é isso

não mais:
decidi

sem mais
recomeçou
tudo

espero mais
sem querer

tanto mais
desapontado

e
ao que tudo
indica

longe

13.5.05

“pausa”

um envelope
achado dentro
de um livro

me suspendeu
o tempo

por hora
fez-se
trégua

aquietou-se
a dor

calaram-se
todas as perguntas
sem resposta
e ensaios
de discussões

voltei à época
da troca inocente
de palavras
e pensamentos
cúmplices

voltou a leveza
de um mundo
sem razão
para dúvidas


por hora
sou só


saudade

12.5.05

“zen”

o grande
absurdo
da vida
está
em
sua
desconcertante
falta
de
mistério

10.5.05

“tem cada uma que parece duas”

boca aberta

escancaro
tudo que posso

e o que não posso

mando à merda

5.5.05

“dois”

medida
que só
é boa
quando reflete
um
no
outro

fácil
fácil
pode virar
quociente
de máscara
índice
de separação

caminhos
paralelos
não se tocam

realidade
de sentimento
é uma só


ou sonho