po(e)st(ma)s

nada de mais. por mais pretensioso que isso possa parecer...

27.3.05

“origami”

dobrando
perfeccionismos

o papel amassa
suja
e rasga.

já não quero brincar

25.3.05

“gênero de questão”

nunca gostei
da palavra
poetisa

uso sempre
poeta:

muda o artigo
apenas


mais que um ser
comum de dois
gêneros,
o poeta
se divide em mais
seres

comuns a ele próprio
em sua humanidade.


não quero dizer
com isso

que poeta não tem
sexo

mas que
sexo
não é questão
de gênero

24.3.05

“ensaio de vôo”

pro kamiquase


já faz um tempo
que perdi certos medos
e nunca mais
os achei

(tanto melhor)

que permaneçam
longe o suficiente

para que eu possa
me permitir
o horizonte

inteiro
em sua
terrível
vastidão.


não sei em que altura
do trajeto
rompi a barreira do quase

mas o caminho à frente
não me deixa
espaço

para preocupações
que não digam respeito
a prosseguir

7.3.05

"letras"

não caminho
por altas literaturas
quando escrevo

só posso
falar
do que conheço:

cotidiano miúdo

insignificâncias nossas
de cada dia

apenas
perto do chão
estou à vontade
para minhas
rasteiras
palavras.


quando escrevo
não subverto:

subverso

2.3.05

"mangue"

a palavra escrita num livro

é como a paisagem
ao longe

apenas as linhas
abstratas

do mar
das folhas
do rio
da lama


caio da contemplação
em mim mesmo

na queda
deixo plantadas
duas pegadas fundas:
raízes de uma percepção