po(e)st(ma)s

nada de mais. por mais pretensioso que isso possa parecer...

26.2.05

"ato reflexo"

igual?

nem à minha própria
imagem
no espelho.

posso ver dentro
dos meus olhos
refletidos

a pressa da mudança
para escapar
àqueles outros
que, de fora,
tentam lhes
apreender

o medo de ser descoberto
a fuga pela transformação:

quando acho
que me entendi
já sou outro.

25.2.05

"tateando"

(d’après adriana calcanhotto)


minha voz
vem repousar
sobre mil
outras

(mil outros
discursos
já pronunciados)

para dizer

que não quer
se considerar
pronta

nunca

e que não
se contentará

nunca

com pouco

20.2.05

"violão"

sempre ouvi
um lamento

pelos corredores
dos conservatórios

madeira antiga
cheirosa
e gasta

o suor das mãos
do aluno

uma corda partida
sem tempo
para ferir
a próxima nota

instrumento
de dor
onde nos crucificamos
e redimimos

adestrados
dedos e ouvidos,
povoarão de som
salas de estar
ou de concerto

e farão sempre
cantar
a matéria morta

16.2.05

"minimalismo"

lapidar

até que não
reste

absolutamente
nada

que não seja
essência.


todo cuidado
é pouco

e amputações
desnecessárias

são sempre
um risco

14.2.05

"barco"

ainda ando
sobre águas movediças
mesmo já terra firme

(não tive tempo
para readaptação)

a maresia continua
entranhada na pele

e o enjôo
é ressaca
de muitos sentimentos
misturados:

onda que vem
quando já não se espera mais

12.2.05

"intermezzo"

(tentativa de explicação do fenômeno)



às vezes
(raras)

o tempo
se
desdobra
em
algumas poucas
horas

coisas extraordinárias
acontecem
se você consegue
mergulhar

antes que a página
se feche

5.2.05

"inícios de um carnaval"

fui atingido
pelo torpor
de uma gripe
hesitante

doenças oportunistas
despertam raiva
e fazem pensar

no que fizemos
para merecer
uma temporada
de molho

(e a hora é sempre
inconveniente)

em breve,
espero já ter saído
pela tangente

caso contrário,
não esperem
por mim

4.2.05

"marinhas"

“deriva”




um mar
de sono

embaçando
a minha tarde

náufrago,

olho em torno

peço socorro

abro a boca
mas o grito
não sai

morro afogado
no deserto

sem o pouso certo
da minha cama




“rede”




foi amarrada no pátio.

o sol
per-
passa
as folhas
das duas
castanheiras
e respinga
no meu
amor nos tempos do cólera

vou lendo
no ritmo
do balanço
e bocejando

é a maresia
que me impede
de prestar atenção
(quase vejo a baía das almas)

entrei no livro.
tanto
que não me interessa mais ler


1.2.05

"mal necessário"

guarda
mira
olha
percebe



para crer

na confusão
a que se chega

quando se acredita
naquilo que
realmente

é