po(e)st(ma)s

nada de mais. por mais pretensioso que isso possa parecer...

4.1.07

“a vida de verdade”

as coisas certas
foram ditas

mas as imagens
nos espelhos
não concordavam

o reflexo
das interpretações
saía do lugar

e a cada hora
velhas novidades
passamos a enxergar

será que
se entende?

pra confiar
o suficiente?

ainda não sei
quem sou

mas me sei
em você

e nossas
metades de dúvidas
formam certeza

não adianta
ir na esquina,
deixar pra mais tarde

desejei realidade
veio a vida

de verdade

23.12.06

“fé”

a vida
é um monte de
mal-entendidos

na verdade
bem pretendidos

por alguma coisa
maior

que não entende
nossa lógica

29.11.06

“clic”

lenta,

a língua traça
o torpor da noite

percorre
silêncios e linhas
na ponta dos sentidos

saliva afiada
que revela o ácido
dos contornos

e o tépido
dos escuros
no hálito
do corpo

prelúdio úmido
de um eterno
quase

quando a língua
acende
e a luz não falha

17.11.06

“experiência mística”

(da série 'gaveta de guardados')



nunca entendi
deus
nem sei
se deveria

hoje
meu subconsciente
freudiano
me soprou
uma resposta
na forma
de um
anagrama imperfeito

estou
ao mesmo
tempo
contido e negado
no conceito
de algo
inconcebível

deus = des-eu

5.9.06

“transparente”

a vida
passa

num sopro
de arte

virando
o jogo
da sorte

que espanta
tudo

que não
cabe
no poema

pra longe
da página...

escrito
só fica
cicatriz
de alegria

10.8.06

“ai ai”

olhei
pela janela
tímido

quis
soltar
um suspiro

e saiu
a tarde
azul

14.7.06

“agenda”

hoje eu tinha
que gostar de uma
lagartixa

e saber apreciar o sol
só por ser sol
(seu valor está
sempre longe
nos dias de chuva
de abril)

na hora do almoço,
adiar um pouco
a hora da comida

e sentir a fome
apertar por dentro

assim saberei
o peso de uma ausência
quando o relógio
avisar do meu atraso
pro último compromisso
do dia:

amor noturno

lento
e
absolutamente
desnecessário

como são todas
as coisas
que realmente
importam

5.6.06

“des(a)tino”

bola de cristal
ou cabra-cega:

a cada passo
muda o futuro

na dança
do calendário
desfolhando
a parede

o hoje
vira ontem
quando
menos
se espera

6.5.06

“poente”

a brisa da praia
sopra fria
na hora
de acender as
luzes da casa

mas o vento
não apaga
lâmpadas
elétricas

(nunca foi
tão difícil
preservar
meus escuros)

corro
até a areia
sem concha
nas mãos
para ouvir
o mar

que me molha
os ouvidos
pelo fio
onde trago
pendurado
meu próprio
coração

7.4.06

“pedestres”

segura na mão do menino
a mãe que tem medo
de atravessar a rua

2.4.06

“tchau”

avançar
sem noção
de dor

igualar os
verbos
no dicionário:

cerca e caminho
pedra e passarinho

pulando
por cima
daquilo
que deveria
dar medo

mas que
a gente
finge
não perceber

24.3.06

“coisa mais besta”

I

não tenho
a mínima
vergonha

na cara

de te pedir
assim
um beijo

na boca


II

acho

que já estou
completamente
apaixonado

o problema
vai ser
apenas

te achar


III

daqui
pra frente

prometo
que não
olho mais

pra trás

sem você
do lado

23.3.06

“casulo”

virado pra mim
era que eu olhava
o mundo

e escrevia
por dentro
dos meus olhos

o que achava
que era
certo
sem ver
pra saber

até o lápis
furar a tela

e tudo
se desnovelar
em verdade

tudo esquisito
e novo
e mesmo:

quando
me mostrei
ninguém
viu

14.3.06

“artesanato”

(hoje, assim como todos os outros dias, é dia da poesia)


linha por linha
tranço
tramas
que não vão
dar em lugar
nenhum
além das
minhas mãos

o destino
não precisa
ser outro
e não poderia
ser melhor

dedos são
hábeis
tradutores
dos meus
de dentro

e não há
como fugir
dos riscos
do papel
pautado

só andando
por cima
da corda bamba
de cada linha

5.3.06

“meu tempo é outro”

não pude
me entender
quando nasci

quis me chamar
estilhaço
por vir de
explosão

mas aprendi
que no fogo
tenho lar
verdadeiro

hoje sei
do lugar
que ocupo
mesmo sem
querer

e aceito
o peso
de me saber
vento
em terra
de moinhos
quebrados

já me feri
por buscar
em outros olhos
reflexos
de um eu
intuído

agora me tornei
espelho de mim
mesmo

em outras
eras solitário
deserto,
hoje rio
abraçado comigo:

meus vôos
mais altos
ainda nem
comecei
a ensaiar

26.2.06

“descompletude”

(para mara)



se os nós não se desatam
pelo menos aproximam
coração com coração
em abrigo de abraço
na confusão da vida

o improvável encaixe
- perfeito paradoxo -
acontece justo

prova cabal
da possibilidade
dos encontros
e do seu feitio
de milagre


além
de qualquer entendimento

ao alcance da mão

27.1.06

“onda”

movimento
de água

sentido
de som na areia
sem sentido
de peso no vôo
de espuma

pulo por cima
de mil lascas
minerais

e afundo no
melisma
salgado
de um

mergulho

9.1.06

“arte também é isso”

juntando cacos de
subterfúgios

achei todas as
pistas falsas
esquecidas
pelo caminho

sobre textos
entre tramas
meta sentidos

palavras tratadas
a perder de vista
para perder à vista
tudo que não seja
estritamente indispensável
à nossa essencial
falta de significado

toda a fachada
do poema
é ameaçada
a cada leitura

toda a precária
arquitetura
equilibrada
apenas
em fé artística
(tão legítima
quanto qualquer
outra desculpa)

a qualquer momento
pode desmoronar
e os escombros
escolherão para si mesmos
novos e traiçoeiros
sentidos

5.1.06

“inauguração”

meus desejos
ainda são
muito complexos

por hora
só posso sonhar
com o dia em que

uma rima besta
baste

31.12.05

“morte = passagem”

(pra tiago)




como bilhete de viagem
te escreveria o meu desejo
de poder ver as coisas
como elas são

mas quase nunca há tempo
para preparar a bagagem

suspendem-se as despedidas
e tudo se resume ao luto
pela vida que poderia ter sido
mas nunca será

nesse momento
me afasto das roupas negras
e peço fundo
que a mudança da estrada
não ralente teu passo

que te recepcionem
meus amigos queridos

aqueles que também já se foram

podem puxar conversa
falando de mim